Existe um dia silencioso, interno, quase imperceptível para quem olha de fora em que algo muda dentro de você. Não é o dia em que tudo se resolve, nem o dia em que a vida finalmente fica fácil. É o dia em que você se cansa de se deixar por último. O dia em que você percebe que, para sobreviver, passou tempo demais se ignorando.
O dia em que você decide parar de se abandonar não vem com fogos, nem com coragem plena. Ele costuma chegar depois de muito cansaço emocional, depois de perceber que você sempre esteve ali para todo mundo, menos para si mesma.
É um dia mais honesto do que bonito. Mais consciente do que confortável. E, ainda assim, é um divisor de águas.
O abandono nem sempre é óbvio
Quando falamos em abandono, a maioria das pessoas pensa em algo externo: alguém que foi embora, que não ficou, que não cuidou. Mas existe um tipo de abandono muito mais silencioso e profundo: aquele que você faz consigo mesma.
Você se abandona quando:
- Ignora seus limites por medo de desagradar
- Finge que está tudo bem quando não está
- Continua em lugares que te machucam
- Se cobra mais do que acolhe
- Se trata com dureza nos dias difíceis
- Vive no automático para não sentir
Nada disso acontece de uma vez. O abandono próprio é construído aos poucos, como estratégia de sobrevivência. Em algum momento da vida, você aprendeu que sentir demais era perigoso, que pedir era fraqueza, que parar era luxo.
Fez o que precisava ser feito. Não porque era fácil, mas porque não parecia haver outra opção. Você se adaptou, se organizou, se fortaleceu. Aprendeu a não parar, a não sentir demais, a não pedir. E por fora, tudo parecia funcionar.
Mas a pergunta que quase nunca foi feita é essa: a que custo?
O custo de seguir sem pausa é alto. Ele aparece no cansaço que não passa, na tensão constante, na dificuldade de sentir prazer, na sensação de estar sempre devendo algo a si mesma. Aparece quando você percebe que sobreviveu a tudo, mas se perdeu um pouco no caminho.
Aguentar não é o mesmo que estar bem. Funcionar não é o mesmo que viver. E reconhecer isso não apaga a sua força apenas revela o quanto ela foi exigida.
Parar de se abandonar começa com um incômodo
Ninguém acorda um dia simplesmente decidindo mudar tudo. O que acontece, na maioria das vezes, é um acúmulo silencioso. Um cansaço que não passa com descanso. Uma irritação constante. Uma tristeza sem nome. Uma sensação de vazio mesmo fazendo tudo “certo”.
Esse incômodo é um sinal. Não de fracasso, mas de consciência.
É quando você percebe que continuar se ignorando dói mais do que enfrentar o desconforto da mudança. Que manter tudo como está já não é sustentável emocionalmente.

Decidir parar de se abandonar não significa virar outra pessoa. Significa começar a se ouvir depois de muito tempo em silêncio interno.
O medo que aparece quando você começa a se escolher
Quando você começa a se olhar com mais honestidade, um medo comum surge: o medo de ser egoísta. Afinal, você passou a vida inteira aprendendo a se adaptar, a cuidar, a ceder. Se escolher parecia errado.
Por isso, no começo, se cuidar dá culpa.
Dizer não dá culpa.
Descansar dá culpa.
Se priorizar dá culpa.
Essa culpa não significa que você está errando. Ela significa apenas que você está quebrando um padrão antigo. Um padrão em que seu valor estava ligado ao quanto você aguentava, e não ao quanto você se respeitava.
Parar de se abandonar não é virar egoísta
Existe uma confusão muito comum entre egoísmo e autocuidado. Egoísmo é agir sem considerar o outro. Autocuidado é agir sem se anular. São coisas completamente diferentes.
Quando você começa a se cuidar:
- Você passa a escolher melhor onde fica
- Aprende a dizer não sem se justificar tanto
- Respeita seus limites físicos e emocionais
- Para de aceitar migalhas
- Deixa de se violentar para caber

Isso não te torna fria. Te torna inteira.
Quem vive se abandonando acredita que amor é sacrifício constante. Quem começa a se cuidar entende que amor também é limite.
O corpo sente quando você para de se abandonar
Algo interessante acontece quando você começa a se escolher, mesmo que de forma tímida. O corpo responde. Às vezes, primeiro com estranhamento, depois com alívio.
Você começa a perceber:
- Menos tensão constante
- Mais clareza emocional
- Menos explosões internas
- Mais consciência do que sente
- Menos necessidade de fugir
O corpo sempre soube. Ele apenas esperava que você escutasse.
Decidir parar de se abandonar é também começar a morar no próprio corpo de novo, em vez de viver desconectada dele.
Pequenas escolhas constroem grandes mudanças
Esse processo não acontece com atitudes grandiosas. Ele acontece nos detalhes do dia a dia, em escolhas pequenas, mas consistentes.
Por exemplo:
- Ir embora quando algo te machuca
- Comer com mais presença
- Dormir quando está exausta

- Pedir ajuda
- Chorar sem se julgar
- Dizer “isso não me faz bem”
Nenhuma dessas escolhas parece revolucionária sozinha. Mas juntas, elas mudam a forma como você se trata e, consequentemente, a forma como você vive.
Você vai decepcionar pessoas e isso faz parte
Um dos motivos pelos quais é tão difícil parar de se abandonar é o medo de decepcionar. Quando você sempre foi a pessoa que resolve, que aguenta, que se adapta, sua mudança incomoda.
Algumas pessoas vão estranhar.
Outras vão resistir.
Algumas podem até se afastar.
Isso dói. Mas também revela algo importante: quem só te ama quando você se anula não ama você, ama o papel que você desempenhava.
Você não é responsável por sustentar relações às custas da sua saúde emocional.
Cuidar de si exige reaprender
Talvez você nunca tenha aprendido a se cuidar de verdade. Aprendeu a sobreviver, a dar conta, a ser forte. Cuidar de si exige reaprender coisas básicas: descansar sem culpa, sentir sem se julgar, pedir sem se envergonhar.
No começo, tudo parece estranho. Você se pergunta se está exagerando, se está sendo fraca, se está fazendo drama. Isso é reflexo de anos se tratando com dureza.
Com o tempo, o cuidado deixa de parecer errado e passa a parecer necessário.
Parar de se abandonar não elimina dias difíceis
É importante ser honesta: se cuidar não impede tristeza, frustração ou dias ruins. A diferença é que, quando você começa a se escolher, você não se abandona nesses dias.
Você passa a:
- Se acolher em vez de se atacar
- Descansar em vez de se forçar

- Pedir ajuda em vez de se isolar
- Respeitar seus limites em vez de ignorá-los
Isso muda tudo.
A dor deixa de ser solitária. E isso faz toda a diferença.
Você não precisa se justificar para se cuidar
Um passo importante nesse processo é entender que você não precisa convencer ninguém de que merece cuidado. Você não precisa ter um motivo grave, nem chegar ao limite, nem adoecer para se escolher.
Cuidado não é prêmio e sim uma necessidade básica.
Quanto antes você entende isso, menos você se abandona tentando provar algo para os outros.
O dia em que você decide ficar
No fundo, parar de se abandonar é decidir ficar com você. Mesmo quando não é fácil. Mesmo quando dói. Mesmo quando ninguém está olhando.
É escolher não se largar nos dias difíceis.
É não virar as costas para si quando algo dá errado.
E isso não acontece de uma vez. Acontece toda vez que você escolhe ficar.
Aprofunde esse cuidado sem culpa
Se, ao longo desse texto, você percebeu que até quando tenta se cuidar sente culpa, talvez seja importante olhar para isso com mais atenção.
👉 Como se cuidar sem se sentir egoísta!
Nesse próximo conteúdo, você vai entender por que o autocuidado ainda pesa tanto emocionalmente e como começar a se escolher sem carregar essa culpa antiga que não te pertence.
Cuidar de si não te afasta do mundo. Te aproxima de quem você realmente é.


